NA COLUNA MEMÓRIA TERRUNHA, A HISTÓRIA DO MUNICÍPIO DE RAMILÂNDIA
Edição: 1669 - 14/07/2011

A Fazenda Rami, latifúndio de 9.680 ha, pertencente aos irmãos Itimura, que deu nome ao município Ramilândia, 51 anos depois de sua formação, não tem rami e a terra é cultivada por cerca de 500 famílias assentadas.

                 No dia 22 de junho, a imprensa nacional destacou em manchete: “Prefeito Susumo Itimura, aos 93 anos é cassado pelos vereadores de Uraí, no Paraná”. O motivo da cassação foi o de “improbidade administrativa na contratação de serviços pagos e não realizados”. A ilegalidade   gira em torno de R$ 11.000,00. Uma esmola diante da avassaladora onda de corrupção que permeia os labirintos da administração pública. No entanto, em nenhum centavo do dinheiro do povo subtraído de erário é justificável. O que causou espanto foi que a punição atingiu em cheio uma das maiores fortunas declaradas à Justiça Eleitoral. No seu 5º mandato como prefeito de Uraí, norte do Paraná, em 2008, Itimura declarou à Justiça Eleitoral possuir um patrimônio de R$ 55 milhões, formado  por 112 bens, entre implementos agrícolas,casas de moradias, investimentos bancários e mais de 4.000 ha de terras. Segundo analistas políticos, a fortuna declarada por Itimura “ é uma das maiores já registradas por políticos, no período eleitoral”.

                E que chama aten-ção, para a região Oeste do Paraná é que o velho prefeito declarou possuir um “imóvel rural denominado Fazenda Banhadão II, Matelândia, PR, com 2.165 hectares”. Na avaliação, do próprio Itimura, a terra vale R$ 6 milhões, e representa mais de  um quarto do que foi a antiga Fazenda Rami, que tinha uma área de 9.680 hectares, hoje de propriedade de 500 famílias assentadas  pelo MST .

 

                A colonização

                A Fazenda Rami, imóvel rural negociado pelo governo de Moysés Lupion,  deu início à colonização de Ramilândia no início dos anos de 1960. E atraiu muita gente, do Norte do Paraná e da Região Norte do Brasil. Foi uma colonização que basicamente fugiu do eixo  migratório formado por  alemães e italianos do Sul do Brasil. Plantações de hortelã, rami, café e algodão atraíram um contingente enorme de trabalhadores braçais. Assim, em 1972 a vila passou a ser Distrito de Matelândia e população chegou a casa dos 11.472 habitantes ( IBGE – 1980). Na Fazenda Rami, em 1975, a área cultivada com a planta têxtil (as fibras são utilizadas basicamente para a confecção de sacos de estopa, cordas, sacolas, tapetes), chegou a ter mais de mil hectares, com produtividade de 2.061 quilos por hectare, fruto do trabalho de cerca de 120 pessoas, que além dos três cortes anuais do rami enfrentavam o duro serviço de “bater as fibras”, na máquina periquita, responsável por centenas de amputações de braços e mãos nas regiões produtoras.

                Joaquim Clarindo da Silva, 81 anos, o popular “cearense” foi capataz da Fazenda Rami, por mais de 20 anos e é só elogios a família Itimura. O João e o Susumo “não permitiam judiaria com os empregados, prática comum nas outras fazendas. Também ninguém passava fome, e houve apenas dois acidentes na máquina  tida como assassina, a piriquita”. O “cearense”, um homem de tez queimada pelo sol relata que o rami acabou devido a importação da fibra da China e os efeitos devastadores da grande geada negra de 1975. “A geada levou mais de 1,5 milhão de pés de café, plantações de rami e outras culturas, como o feijão e o milho”. Os nordestinos, cabras machos, não desistiram. Partiram para o trabalho  na lavoura do algodão que, por volta de 1985,  a praga do bicudo destruiu. E a desesperança chegou até o cafundós da Fazenda Rami, que a partir de 1998 passou a ser terra improdutiva. O local ideal para ação do Movimento Sem Terra. E foi o que aconteceu.

 

                A nova colonização do MST

                Antes da chegada dos Sem Terra, Ramilândia passa a ser município em 1993, basicamente na base do interesse político.

                O jovem município era praticamente zero em infraestrutura, sem prefeitura, hospital, câmara de vereadores.

                O que existia e ainda existe inúmeros botecos com mesa de sinuca, jogo do bicho, cachaça, bochas para partidas de 48 e alguns bailões. E a população foi se evaporando, baixando para menos de quatro mil habitantes.

                A Fazenda Rami, praticamente improdutiva, deu espaço para ocupações pacíficas do MST. A família Itimura não reivindicou  reintegração de posse da Fazenda na justiça. Ao contrário, segundo o assentado Salvador Cordeiro, houve até um discreto apoio. “O Itimura não mandou a polícia retirar a gente, não fechou as porteiras e até mandou carnear umas vacas para alimentação do povo”, diz Cordeiro.

                Com as porteiras abertas os assentamentos foram crescendo. O 16 de maio abriga 220 pessoas com propriedades entre 10 a 14 hectares; o Formiga, ou Banco da Terra, tem 200 famílias, com propriedades menores; o Santa Izabel e Casa Amarela, ambos em fase de estruturação contam com mais 63 famílias. Nos assentamentos, a grande maioria recebe a Bolsa Família, as casas têm luz elétrica e água encanada.

                A produção agropecuária visa o sustento da família. Porém, vende-se leite, milho, feijão e soja, esta cultura com lavouras  recentes.

                Os assentados reclamam do transporte escolar e do atendimento médico, que é precário.

 

                Sem o rami

                Por entre os campos agora cultivados, tudo se pode ver. Área de reflorestamento mantido pela Cooperativa Lar, lavouras de milho, soja, criação de animais, redes de energia elétrica da Itaipu, uma fênix do renascimento da antiga Fazenda Rami. A única coisa que não se vê é uma plantação de rami. Com muito esforço pode-se encontrar alguma moita dispersa nas barrancas das estradas rurais. Nada mais. Nem uma ruína da famosa máquina desfibradeira periquito. O que sobrou foi uma vaga memória da Fazenda Rami, pelos antigos moradores que não cansam de elogiar a família Itimura e, a lamentar a cassação do mandato do velho prefeito de Uraí.

 

DE SOL E LUA

*Ramilândia já teve dois nomes: Mina e Banhadão.

*A população de Ramilândia é de 4.134 habitantes

(IBGE 2010).

*Para tirar Ramilândia do “isolamento”, políticos locais defendem uma ligação pavimentada até Diamante do Oeste.

*Emprego, tem à vontade. É no frigorífico da Lar, a 13 quilômetros do município.

*O festival da canção é o principal evento cultural do município.

*Sem entrar no mérito da questão jurídica, os antigos e os assentados defendem o velho Susumo Itimura. Para eles, o japonês merece uma estátua na entrada da cidade.

*A grande dúvida: Por que a Fazenda Banhadão

(Rami), depois de oito anos de ocupação permanece como propriedade de Itimura?

* Na declaração de bens de Itimura, 27 máquinas desfibradoras piriquita aparecem. (Roberto Marin)


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